Padrões
obscuros são práticas
comerciais concebidas e introduzidas na estrutura, design ou
funcionalidades de interfaces digitais ou na arquitectura de
sistemas susceptíveis de influenciar os consumidores a tomar decisões que
de outro modo não tomariam.
Exemplos:
a apresentação de escolhas, usando falsos cronómetros de contagem regressiva
para levar a “não perder uma oportunidade única”; a adopção da manipulação emocional
para instilar dúvidas acerca da escolha; formulações com perguntas com duplas
negativas; opções de consentimento fraudulentas em banners de cookies,
etc.
Se
bem que tais situações não sejam novidade, as preocupações acentuaram-se com a
eficácia e a exponenciação do digital, bem como com o potencial de persuasão
pessoa-a-pessoa mediante dados comportamentais recolhidos e expressamente tratados.
Nos
últimos anos houve inúmeras acções contra práticas enganosas em linha (p.e,
preços gota-a-gota, armadilhas de assinaturas, informações ocultas), que não
eram rotuladas como "padrões obscuros", mas apenas como violações às
leis de defesa do consumidor.
Em
países como os EUA, Reino Unido, Coreia do Sul, Índia e em instituições como a
OCDE e a C.E. subiram de tom os alertas.
No
inquérito de 2022, na U.E.,
u
61%
notaram que havia um considerável incremento de padrões obscuros no decurso da
avaliação.
Dele
se colheu:
u
97%
dos websites e app’s mais populares a que recorrem os consumidores
introduziram, ao menos, um padrão obscuro (mais comuns: ocultação de
informações, criação de falsas hierarquias nas arquitecturas de escolha,
repetição do mesmo pedido, cancelamentos difíceis e registos forçados).
u
Quase
40% das lojas de retalho em linha continham, ao menos, um padrão obscuro
(falsos cronómetros de contagem regressiva, informações ocultas e falsas
hierarquias em arquiteturas de escolha).
Já
a varredura a que procederam duas entidades internacionais, em 2024, nos
sites/app´s de 642 fornecedores, revelou:
u
75,7%
introduziram, ao menos, um padrão obscuro, e
u
66,8%
empregaram dois ou mais.
Práticas
furtivas (p.e., incapacidade do consumidor de desactivar a renovação automática
do serviço de assinatura) e interferência na interface (p.e., tornar uma
assinatura vantajosa para o comerciante mais proeminente) foram encontradas
amiúde.
Em
relação às evidências de problemas actuais,
u
40%
relataram ter vivido uma situação em que o design ou a linguagem usada
em um site/app era confuso, criando insegurança na decisão e nos direitos e
obrigações assumidos.
u
A
66% depararam-se-lhes referências de que um dado produto se estava a esgotar ou com elevada procura
(excessivo n.º a consultá-lo em simultâneo) e
u
61%
com indicações de que o produto estava disponível apenas por tempo limitado,
sem hipótese de se saber da sua veracidade.
u
32%
disseram haver pago mais do que contavam porque, durante o processo de
compra, o preço final mudou para valor superior ao anunciado.
u
48%
dos consumidores, especialmente os jovens, foram pressionados com repetidos
pedidos para tomar uma decisão, p. e, para obter uma conta premium,
ofertas de descontos especiais, pedidos para comprar um produto recomendado.
Após
indicar sua escolha ou recusar uma opção oferecida,
u
42%
receberam mensagens a semear a dúvida, com perguntas como
"você tem certeza de que não quer
um desconto?".
u
37%
reconheceram que informações relevantes foram visualmente esbatidas ou
ordenadas de forma a promover uma opção que não seria do seu interesse.
u
37%
encontraram opções pré-selecionadas que eram a favor da empresa, mas alterá-las
algo de extrema difículdade.
u
42%
viveram uma situação em que fazer uma escolha levou a um resultado diferente do
que normalmente esperariam, p. e., premir um botão de cancelamento de
assinatura levaria a uma página que descrevia os benefícios de tal serviço, que
se perderiam.
Padrões obscuros podem afectar uma ampla gama
de decisões transaccionais e muitos deles prejudicam consideravelmente a
capacidade de os consumidores tomarem uma decisão esclarecida.
Na
consulta pública,
u
89%
dos consumidores revelaram ficar confusos com padrões escuros no design de
sites/app´s e
u
76%
sentiram-se pressionados a comprar algo devido à linguagem ou design usado.
As
experiências comportamentais no estudo de 2022 mostraram que, quando expostos a
padrões obscuros, a probabilidade de fazer uma escolha divergente das
preferências aumentou — o número subiu
u
51%
para consumidores vulneráveis e
u
47%
para consumidores médios, com os mais velhos e com níveis de educação mais
elementares, como os mais afectados.
Dados muito impressionantes para se fechar os olhos
à realidade.
Mário Frota