Magnífico Reitor, Prof. Doutor Edison Alencar
Casagranda
Senhora Pró-Reitora, Prof.ª Doutora Ana
Carolina Bertolleti De Marchi
Senhor Pró-Reitor, Prof. Doutor Rafael Pavan
Senhor Presidente da Fundação da UPF, Prof.
Doutor Mauro Antônio Rizzardi
Senhor Director da Faculdade de Direito da
Universidade de Passo Fundo, Prof. Doutor Rogério da Silva
Excelências
Senhoras e Senhores Convidados
Senhoras e Senhores Professores
Senhoras e Senhores Estudantes
Minhas Senhoras e meus Senhores
Chora copiosamente a natureza. Que o seja de alegria!
Sic transit gloria mundi!
Uma evocação
Uma ode aos pernambucanos, de
origem portuguesa, que Gilberto Freyre, de forma sublime retratou, que entre as
salsas vagas do Atlântico, na Angra do Negro, e as finas areias do deserto do Namibe,
em terras inóspitas, no Sul de Angola, como diria o Poeta, nova civilização
edificaram.
Corria o ano de 1849 e a nau
capitânea sob o comando de Bernardino José Freire de Figueiredo e Castro, que
nascera no lugar de Avô, Ponte das Três Entradas, distrito de Coimbra, ancorou
ao largo da imensa baía e nos plainos que se avistavam sediou a que viria a ser
a primeira Colónia, saída do bojo da Nau Tentativa Feliz.
E, logo no ano imediato, nova
Colónia emergira da generosa gente de Pernambuco, que se aprestara à aventura,
numa terra toldada de cacimbos, açoitada pelo vento leste e fustigada pela
poalha que do deserto se soltava in continenti.
Nesse egrégio torrão, menos de
um século depois, viria a despertar para a vida o filho varão do neto mais
velho de um armador de pesca que de Olhão da Restauração, nos Algarves, demandara
as inóspitas plagas africanas para instalar, no Sul de Angola, as primeiras ‘armações
à Valenciana’, como o narra Alberto Iria, na História da Gesta Marítima de
Portugal.
E ainda de uma neta de João de
Oliveira Rogado Leitão, que como oficial do Corpo Expedicionário, nos anos
oitenta do século XIX, fora chamado às elevadas funções de 1.º Capitão Residente
do Reino do Congo e que em Moçâmedes depositara a sua descendência.
É esse jovem que teve de subir
a alcantilada Chela, no Planalto da Huíla, no Sul de Angola, para se dotar das
segundas letras que nos liceus do tempo se granjeavam, que tendes diante de
vós.
A evocação de quem nos precedeu
nesta cruzada pelas distintas partidas do globo constitui um necessário preito
de homenagem a quem arrostou as agruras dos tempos para nos deixar em legado as
urbes em que, anos volvidos, nos passeamos.
A evocação de espaços entre o
generoso Atlântico e as extensões áridas, agrestes do Namibe, onde viceja
impante a Welwítchia Mirabilis, símbolo de resistência, sinal distintivo de
quem abraçou o modelar exemplo de sobrevivência em meio hostil e desafia a vida
nas suas mais perturbantes incógnitas.
A evocação dos que nos deram o
ser e cedo rumaram à Eternidade.
A evocação de quem encetou um
nobre projecto de vida connosco e da prole que nos propiciou:
Para ti, Ângela Maria, amor de
uma vida, um pensamento muito especial.
Porque foste cabouco fecundo
na unidade familiar que mister seria preservar quando de supetão nos entraram porta
adentro mais de duas dezenas de familiares e não familiares exilados de África
sem qualquer suporte e que acolhemos de braços abertos numa modesta casa de
aluguel numa terra fria e distante, que nem sempre soube mitigar o drama em que
tantas vidas se dissolveram.
A vós, meus filhos, Octávia
Ângela, Jorge Manuel, Ana Paula e Ângela Maria, que cresceram tocados pelas
mágoas de tantos que em nosso lar se refugiaram e na dor e na saudade moldaram carácter
e personalidade.
E aos escassos amigos que
concorreram, a seu modo, para aplacar tamanhas vicissitudes, eterna gratidão,
em que cumpre destacar o saudoso colega, José Adalberto Amado de Azevedo.
Sem ignorar os familiares
próximos – de uma e outra das estirpes – cuja unidade indissolúvel se revelou
essencial à resiliência de que todos deram inquestionáveis provas de adaptação
e reconversão de vida.
E que traduzo nesta hilariante
quadra de um sobrinho, o Alexandre Portugal, do Porto, que revela bem o sentimento
de afinidade que é apanágio no seio da família alargada:
O Meu tio @Mário Frota
É o terror do comércio enganador
E o campeão do Rodízio
brasileiro
O novo Honoris Causa tem valor
Mas a toga… vai gastar o pano
inteiro!
Um compromisso
Na intersecção Brasil – Angola
– Portugal um quadro nos perseguiu vida em fora.
Com a catástrofe por que se
saldou a denominada “exemplar descolonização”, o alter nomen de um
ignóbil “abandono colonial”, o confinamento à antiga Metrópole e o múnus a que
nos consagrámos.
Os africanos têm a justiça à
flor da pele. Com o que tal asserção é susceptível de postular. A JUSTIÇA como
bem supremo. Sentimo-nos ungido por uma terra em que a pugna pela justiça – em
suas plúrimas dimensões – era um imperativo quotidiano.
O chão distante, a que se não
torna, a Língua que irmana, o sentimento que conclama.
Com o Poeta, eis-nos a proclamar
a plenos pulmões:
“A minha Pátria é a língua
portuguesa”.
Língua que é veículo, língua
que é expressão, língua que é sentimento, a língua que é traço de união. Nos
matizes de que se doura e se tece. Que a língua é edificada instante a instante
pelo povo.
Uma língua que une as sete
partidas do globo e tem no Brasil o seu expoente mais esplendoroso.
Uma língua que teve como
infrenes defensores, contra a dissolução e seu acantonamento noutras esferas,
decerto espúrias, vultos como os de Ruy Barbosa, insigne cultor da língua de
Camões.
Uma língua feita liame, uma
língua suporte de cooperação, em mãos que se cruzam e se entreajudam, uma
língua que é esteio, é vida, é obra!
Com Olavo Bilac exaltemo-la:
“Última flor do Lácio, inculta e
bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela.
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”
A evocação de João de Deus Canedo e
Aline Santos que nos ensinaram as primeiras letras, nas escolas de então, em
Moçâmedes.
A evocação de Higino Vieira e
Alfredo Pinto da Silva que no Lubango e em Benguela nos iniciaram na língua pátria
que em Pátria se converteu.
Quando a escola pública, nos longes
de África, reunia um escol de professores a quem devemos uma formação singular
haurida em ambiente de excelsa qualidade, o sentimento de júbilo que exprimimos
não conhece limites!
A Casa que ora nos acolhe
Em um remoto Congresso em Brasília,
promovido pelo Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor, que
ajudáramos a criar, na esteira da AIDC/IACL – Associação Internacional de
Direito do Consumo -, que fundáramos em Coimbra em 1988 e da instituição
homóloga, a apDC – associação portuguesa de Direito do Consumidor em 1989, eis
que se nos depara um velho companheiro das andanças do Lubango que se
trasladara, criança ainda, da Metrópole para o Planalto da Huíla e que,
concluídos os estudos liceais, se formara em Agrimensura, o Mário Martins
Mateiro.
O exílio tem destas coisas
singulares.
As gentes de Angola que se deixaram
enredar no êxodo de cerca de 1 milhão de almas (que os dados oficiais
desvalorizam “et pour cause”…) espalharam-se pelo globo.
Mateiro, que se acolhera de início,
mai-la família, a Lagoa Vermelha, reconvertera a sua vida, cursara Direito,
granjeara sucessivos graus de Mestre e Doutor, professando a docência na
Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo.
E mostrara-se interessado na nossa
presença em Passo Fundo. Tal só se viria a confirmar em 2011 em Seminário
Internacional adrede estruturado com jusconsumeristas de Portugal e de Espanha e
de outros países latino-americanos, para além de prestigiosos Mestres
brasileiros, que os há de real valia.
Mário Mateiro revelou, em terra
adoptiva, os seus excelsos dotes de empreendedor e de pedagogo, numa rara
síntese recriativa da sua invulgar personalidade.
Mateiro foi professor e arquitecto:
o nobre edifício que nos acolhe é de sua traça e a sua dimensão fruto do seu
génio, de quem vê muito para além da transitoriedade das coisas.
Mateiro evidenciou-se na gestão.
Dirigiu Direito, Presidiu à Fundação da Universidade.
Foi um pedagogo com raras
singularidades. De todos reconhecido.
Com a sua Sala-Museu que enternece
quantos a visitam.
Só uma Casa grande poderia albergar
em suas paredes um Homem da sua dimensão.
Casa de Saber. Casa de Cultura.
Casa com a dimensão Universal que não pode escapar a uma Universidade com
expressão “urbi et orbi”!
Casa de enlaçamento à Comunidade
que - escorado no Direito como pedra
angular – acaba de celebrar uma interessante efeméride nas suas sete décadas de
existência.
Congratulações, Universidade de
Passo Fundo, por seus 70 anos de radiosa actividade, que é Norte, luzeiro, no
Norte do Rio Grande do Sul e referência no País-Continente que a cada passo nos
surpreende.
Rememorar Mário Mateiro é exaltar a
cooperação que connosco se encetou vai para 15 anos com frutuosos resultados,
que pós-Mateiro outras mãos e outros
espíritos conheceu, numa notável sucessão de personalidades que souberam honrar
o legado que se lhes cometeu.
A obras de extensão Universitária
como o Balcão do Consumidor, com que nos identificamos e em cujos trabalhos
participamos, reflectem bem esse dar de mãos à comunidade que é apanágio de
instituições que se não encerram numa torre de marfim e conferem um real
sentido ao seu enleamento com as comunidades envolventes.
A Faculdade de Direito da Universidade de
Passo Fundo desenvolve diversos projectos e núcleos de extensão além do Balcão
do Consumidor, dirigidos às populações circum-adjacentes, à superação de
dificuldades de integração e à mediação de eventuais conflitos que estalem
entre os diferentes estamentos:
• Balcão do Migrante e Refugiado:
Oferece suporte e orientação jurídica a migrantes e refugiados na região.
• Projeto Educação em Direitos
Humanos para a Juventude: Promove ações educativas e de conscientização sobre
cidadania e direitos humanos voltadas ao público jovem.
• PROJUR Mulher e Diversidade:
Prestação de assistência jurídica, acolhimento e orientação para mulheres em
situação de vulnerabilidade e questões de diversidade.
• MEDIAJUR (Núcleo de Prevenção e
Solução Integrativa de Conflitos): Focado em métodos alternativos de resolução
de conflitos, como a mediação e conciliação.
• Balcão do Trabalhador: Auxilia
trabalhadores com orientações e encaminhamentos sobre direitos laborais.
• Balcão Migra: Projeto de
atendimento com foco em pautas migratórias (junto ao prédio U1 – Direito).
• Balcão da Pessoa Idosa: Oferece
consultoria e suporte jurídico especializado para idosos (disponível em dias
específicos da semana no centro de extensão).
• SAJUR e JEC: Centro de Práticas
Jurídicas e Juizado Especial Cível integrados à formação acadêmica.
De ua Casa com esta aura, esta
dimensão e o reconhecimento da sua gesta, receber um galardão como o que o
Conselho Universitário, presidido por Vossa Excelência, Magnífico Reitor,
precedendo uma “petitio” da Congregação da Escola de Ciências Jurídicas, houve
por bem atribuir-me, é suma honra, é algo que jamais estaria em nosso
horizonte.
Fiéis à consigna” actividades
estimuladas por sentimentos que não por vencimentos” jamais suspeitaríamos das
congeminações do Prof. Doutor Rogério da Silva, proficiente director da
Faculdade de Direito desta portentosa Universidade, que redundaram na outorga
do grau de Doutor Honoris Causa.
A eficiente gestão do antigo
Pró-Reitor e actual director da Faculdade de Direito, na esteira do modelar
exemplo de Mateiro, seu seguidor indefectível, elevam-no a um patamar
institucional insuperável.
Rogério da Silva, mais de que homem
de palavras, é um Homem de palavra,é um Homem de Acção que, no seu jeito
peculiar, leva invariavelmente, como diz o povo, a água ao seu moinho.
Rogério da Silva é Homem que subiu
a vida a pulso, como diz Saúl Spinelli, que conhece como ninguém as agruras da
vida, que de forma refinada conhece os problemas e lhes oferece, qual dádiva
generosa, soluções ajustadas às necessidades experimentadas.
É um Homem Institucional, que cuida
da sua quinta com o esmero de um gestor exímio, exigente, proficiente,
permanentemente preocupado, diligente, zeloso e que ergue de modo altaneiro o
pendão da sua Escola e da sua Universidade com a galhardia de poucos.
O espírito de missão norteia os
seus passos.
Há 15 anos que sedimentamos dia-a-dia
uma amizade forjada nos interesses superiores que nos são comuns e nos
transcendem, no Direito do Consumidor, nos Direitos Humanos, vias para a dignificação
do Cidadão-Consumidor na sua dimensão globalizante.
Nós que religiosamente, ao domingo
- permita-se-nos a inconfidência – fazemos uma retrospectiva dos trabalhos da
semana e das inovações que vão surgindo numa e noutra das ribas do Atlântico,
somos cúmplices de um conceito singular de cooperação que de todo importaria
fomentar. E nos projectamos em elocubrações a que subjaz em plenitude o
interesse marcantemente geral.
A compreensão entre os povos passa
por esse diuturno propósito.
A cooperação é o chão onde viceja a
paz.
Universidade: sementeira de
liberdades que há-de louvar-se na igualdade, na fraternidade, na solidariedade
e na justiça social.
Universidade, Terreiro da Luz e da Palavra
Erigida contra a névoa do
obscurantismo,
Ergues-te, ó ágora de pedra, espírito e luz,
Onde a razão recusa o abismo
e o livre pensar à história conduz.
Tu és o solo inviolável das
liberdades,
Santuário onde a mordaça não faz morada,
Onde o confronto de ideias desfaz vaidades
E a busca pela verdade é consagrada.
Em tuas cátedras, o tempo se faz
memória,
Nos teus laboratórios, desenha-se o porvir,
Insubmissa guardiã da humana glória,
Que ensina o homem a questionar e a descobrir.
Não há grilhão que curve a tua
herança,
Nem sombra que apague o teu farol soberano;
Em ti reside a eterna e viva esperança
Do triunfo da mente e do gênio humano.
Um Post Scriptum repassado de
profunda tristeza:
João Fernando Ferreira Pinto,
Ministro do Supremo Tribunal de Justiça de Portugal, que connosco transpôs os
umbrais da Porta Férrea, no recuado ano de 1972, na eterna “Alma Mater
Conimbrigencis”, finou-se ontem num dos hospitais de referência do Porto,
vítima de uma impenitente pneumonia.
Dias antes, em mensagem que nos
endereçara, parafraseando Fernando Pessoa, escrevera:
" O próprio viver é morrer,
porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a
menos nela.”
Que lá do assento etéreo onde
subiste a memória de um curso tão singular se não esvaneça.
Que Deus te acolha em Sua Imensa
Glória!