Rui Duarte
(In diário ‘As Beiras’, Coimbra, 09 de Fevereiro de 2026)
Viver na Suíça é conviver com
uma relação muito concreta com a democracia. Esta semana, o anúncio de um novo
referendo desta vez para proteger o dinheiro físico na Constituição voltou a
lembrar que aqui as grandes decisões não são apenas debatidas: são votadas. À
primeira vista, o tema parece técnico, quase nostálgico. Num país altamente
digitalizado, onde pagamentos eletrónicos são regra e a inovação financeira
avança depressa, porque votar sobre notas e moedas?
Mas é precisamente aí que a
discussão ganha profundidade. O debate não é sobre passado versus futuro. É
sobre liberdade de escolha, resiliência e confiança. O numerário, na Suíça, nunca
foi apenas um meio de pagamento. É também um símbolo de autonomia individual,
de privacidade e de estabilidade em tempos incertos. Num mundo cada vez mais dependente
de sistemas digitais eficientes, mas vulneráveis, garantir a existência do dinheiro
físico é visto por muitos como uma espécie de seguro democrático: algo simples,
tangível, que funciona mesmo quando tudo o resto falha. O que impressiona não é
apenas o conteúdo do referendo, mas o processo. Aqui, a inovação não elimina o
debate; obriga-o.
E a confiança no futuro não dispensa mecanismos de proteção
do presente. Este referendo diz muito sobre a Suíça de hoje. Um país que aposta
na tecnologia, mas não abdica do ontrolo. Que avança, mas com redundâncias. Que
acredita que progresso não é substituir tudo o que existia, mas escolher com
cuidado o que merece permanecer. Talvez seja essa a lição mais silenciosa deste
momento: numa era de aceleração constante, proteger opções pode ser tão
inovador quanto criar novas soluções. E permitir que os cidadãos decidam sobre
isso é, em si mesmo, um ato de confiança no futuro.