sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A prescrição apaga, a caducidade afaga: ainda que a não invoque, dá-se a sua absorção pela caducidade do direito de acção


“A empresa municipal que me abastece de água apresentou-me uma factura com dívidas acumuladas de há 10 anos. Sem mais nem menos. Pode parecer fantasia, mas é verdade!

Receio que, se não pagar estas pretensas dívidas acumuladas, me cortem a água como retaliação.

Uma dívida tão antiga ainda estará de pé?

E a empresa, só passados dez anos, é que apurou que havia dívidas por saldar?“

Ante a factualidade revelada, cumpre emitir ponderado parecer:

1.    A prescrição de dívidas, nos serviços públicos essenciais, é de seis meses (Lei 23/96: n.º 1 do art.º 10.º).

1.1.               O prazo de prescrição conta-se da data do fornecimento, que corresponde, afinal, ao da emissão regular da factura, cuja periodicidade é mensal.

1.2.               Para que a prescrição opere, impõe-se que o consumidor a invoque, judicial ou extrajudicialmente, sob pena de, em princípio, tal lhe não aproveitar:

“O tribunal não pode suprir, de ofício, a prescrição; esta necessita, para ser eficaz, de ser invocada, judicial ou extrajudicialmente, por aquele a quem aproveita… ou, tratando-se de incapaz, pelo Ministério Público.” (Cód. Civil: art.º 303)

2.    A prescrição liberta, no caso, o consumidor do cumprimento judicial da dívida, que se extingue: fica residualmente, na circunstância, uma obrigação natural.

2.1.               Obrigação natural é a que se “funda” “num mero dever de ordem moral ou social, cujo cumprimento não é judicialmente exigível...” (Cód. Civil: art.º 402)

2.2.               É direito do consumidor o não pagar uma dívida prescrita, não um seu aproveitamento ilícito.  Direito ditado por razões de segurança jurídica. Que se prendem, no caso, com o equilíbrio dos orçamentos domésticos. E como forma de punir a inacção do fornecedor.

3.    A lei prevê ainda inteligentemente que “ prazo para a propositura da acção ou da injunção é de seis meses”: institui, no caso, a figura da “caducidade do direito de acção” (Lei 23/96: n.º 3 do art.º 10.º)

4.    Ora, a acção (ou a injunção) cai se for proposta (requerida) para além dos seis meses do fornecimento do produto que corresponde à data da regular emissão da factura mensal.

5.    A caducidade é de conhecimento oficioso, isto é, o tribunal conhecê-la-á sem necessidade de invocação pelo interessado, pela conjugação de dois dispositivos (Lei 23/96: art.ºs 10.º e 13.º).

6.    Se, proposta a acção (ou requerida a injunção) mais de 6 meses após a prestação do serviço, o tribunal reconhecerá que a acção caiu, não pode naturalmente prosseguir, o que faz com que a prescrição deixe de ser invocada (porque só o seria na contestação – a peça do processo em que o demandado deduz a sua defesa).

7.    Sendo, em bom rigor, de conhecimento oficioso, a caducidade do direito de acção como que “absorve” a prescrição.

8.    Perante a exigência de pagamento de uma dívida prescrita, restará, em tais casos, aos consumidores, sempre que interpelados, instaurar antecipadamente uma acção de simples apreciação negativa nos tribunais arbitrais, a fim de barrar as acções ou injunções que os fornecedores, por si só ou por interposição dos cobradores de fraque, venham a instaurar ou requerer.

9. Se o consumidor se recusar a pagar uma qualquer factura por ter invocado, a justo título, a prescrição, não pode daí advir qualquer desvantagem, nomeadamente:

. nova exigência de pagamento;

. suspensão do fornecimento;

. extinção do contrato;

. exigência de caução ou outras garantias para poder continuar a processar-se o fornecimento ou a prestação de serviço;

. recusa de celebração de um outro contrato…

10. É vedado ao fornecedor retaliar, como parece estar a acontecer entre nós, cabendo, na circunstância, ao consumidor, sempre que tal aconteça, requerer uma indemnização, tanto pelos prejuízos materiais como materiais que a situação deveras lhe acarrete, no tribunal de consumo a que recorra.

 

EM CONCLUSÃO:

1.    Decorridos seis meses sobre a regular remessa das facturas que correspondem ao período dentro do qual o fornecimento se processa, prescrevem as dívidas da água como dos demais serviços públicos essenciais.

2.    Subsiste uma residual obrigação natural, por não poder ser judicialmente exigível a dívida prescrita: se o consumidor pagar por vontade própria tal corresponde a um dever de justiça: não pode, porém, ser obrigado,

3.    A remessa de facturas com dívidas prescritas, sem mais, como se as dívidas fossem judicialmente exigíveis,  constitui acto em patente  má-fé, proibido por lei e susceptível de impor uma indemnização aos consumidores pelos danos daí decorrentes.

Eis o que se nos oferece dizer, salvo opinião mais abalizada em contrário.

 

Mário Frota

presidente emérito da apDC - DIREITO DO CONSUMO - Portugal

Preço da gasolina vai afundar - e o do gasóleo? Veja as previsões

O preço da gasolina deve cair sete cêntimos no início da próxima semana, enquanto o gasóleo deve subir um cêntimo, segundo estimativas provisórias do setor. Os preços atuais são de 2,094 euros por litro para a gasolina simples e 2,176 euros por litro para o gasóleo.

Os preços dos combustíveis vão ter comportamentos opostos no início da próxima semana. O preço da gasolina deve afundar sete cêntimos, ao passo que o gasóleo deve encarecer um cêntimo, de acordo com as estimativas provisórias adiantadas esta sexta-feira por fonte do setor ao Notícias ao Minuto.  Ler mais

5º SEMINÁRIO DE RELAÇÕES DE CONSUMO



 

20 BALCÃO DO CONSUMIDOR


 

Como remédio a reparação ...


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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

La ignorancia de la ley no excusa de su cumplimiento, pero el consumidor no está obligado a seguir la jurisprudencia del Supremo

 

La Audiencia de Tarragona rechaza que una sentencia colectiva sobre una cláusula abusiva inicie automáticamente la prescripción de las reclamaciones individuales.

BBVA pretendía que una sentencia que declaró abusiva su cláusula de gastos hipotecarios sirviera para considerar prescritas las reclamaciones de sus clientes. La Audiencia Provincial de Tarragona rechaza este argumento y señala una paradoja difícil de ignorar: aquella resolución vinculaba indiscutiblemente al banco y, sin embargo, más de diez años después, la entidad todavía no había asumido frente a los consumidores todas sus consecuencias económicas.

La Sección Tercera de la Audiencia Provincial de Tarragona ha confirmado la condena a BBVA a devolver 1.087,72 euros a una clienta por los gastos registrales, de gestoría y tasación, así como la mitad de los gastos notariales derivados de una hipoteca firmada en septiembre de 2007. A esa cantidad deberán añadirse los intereses legales correspondientes. La entidad también deberá asumir las costas de la primera instancia y de la apelación. Ler mais 

Mais de 600 reclamações relacionadas com descontos nos supermercados chegam ao Portal da Queixa


Atendimento e experiência do cliente são o principal motivo de reclamação, devido a atendimento ineficiente, tempos de espera, falta de pessoal, falhas de comunicação e problemas nos canais digitais.

As reclamações recebidas pelo Portal da Queixa sobre promoções, descontos e cupões nos supermercados já ultrapassaram, em menos de dez meses, o total registado durante todo o ano de 2025.

Desde o início do ano, o Portal da Queixa contabilizou 626 reclamações nesta área, face às 583 registadas no ano passado. Ler mais

 

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